Para princípio de conversa: Maria da Graça Coelho de Barros, 85 anos, e Óscar Ferreira, 80, são os “únicos primos direitos” vivos de Carmen Miranda. Assim o reclamam os dois idosos, na serena Várzea da Ovelha e Aliviada, Marco de Canaveses, desfiando ao 24horas as lembranças da parente famosa que, cheios de pena, nunca chegaram a conhecer... O que lhes vale são as velhas fotos, os livros e a memória da TV. “Ela era muito bonita, tinha muita beleza...”, diz o primo Óscar, pedreiro reformado, com a malandrice e bailar-lhe nos olhos vivos enquanto escorropicha o copito de bagaço. “Muito gostava de a ter conhecido, assim eu e ela, actriz, quando enfiava aquelas roupas, mas tenho que me contentar com a televisão...”, suspira, num desconsolado de faz de conta.
Foi um infeliz desencontro de apenas duas décadas. Carmen Miranda também ali nasceu, naquele recanto de serra onde o rio Ovelha se vai misturar ao Tâmega. Faria 100 anos hoje. Mas a verdade é que abalou para o Brasil com apenas meses de idade e nunca mais voltou (ver caixa). “O pai da Carmen Miranda era irmão da minha mãe e eu nasci na casa onde ela nasceu. Primos direitos somos só dois, eu e a Maria da Graça.Oresto é tudo mentira”, frisa Óscar Ferreira ao 24horas, enxotando para longe eventuais usurpadores de fama alheia. Óscar diz que se lembra muito bem do “tio José Maria”, pai de Carmen, e da roupa usada que ele mandava para os familiares que ficaram na pobreza de Várzea daOvelha. “Até dólares mandava”, recorda. Mas era o tio...
O enxoval de baptizado
Já Maria da Graça, filha de um irmão da mãe de Carmen, jura que não tem razões de queixa da prima. Pelo contrário. “Tive onze filhos e ela ajudou-me muito. Nunca esqueceu a família. Até me ofereceu o enxoval para o baptizado de um dos meus meninos. Quer-se dizer: a minha tia é que dava, mas de certeza que ela também tinha a vontade”, explica a octogenária ao 24horas. “Tenho muito orgulho na minha prima. Gostava muito de a ter conhecido pessoalmente. Tenho muita pena de nunca ter falado com ela, mas só a conheço por aqui”, declara Maria da Graça, cheia de vida, abraçando com todo o carinho do mundo a enorme biografia de Carmen Miranda da autoria do brasileiro Cassio Emmanuel Barsante. “Em fotografia era muito bonita!
Mas dizem que era muito pequenina e que usava aqueles sapatos esquisitos, muito altos”, vai dizendo o idosa, enquanto passa as mãos, enlevada, pelas páginas do livro aberto no colo. E é verdade: Carmen Miranda era mesmo uma mulher pequena, media pouco mais de metro e meio. O reputado realizador e locutor de rádio brasileiro César Ladeira até lhe pôs o nome carinhoso de “A Pequena Notável”. Maria da Graça ouve e sorri, a puxar à vaidade: “É? Na nossa família somos todos baixinhos