O tio de José Sócrates, Júlio Monteiro, 68 anos, foi ontem à tarde confrontado no Tribunal de Cascais essencialmente com endereços de e-mail e com o conteúdo das mensagens electrónicas que o filho Hugo Monteiro, 34 anos, enviou em 2005 aos responsáveis do Freeport para lhes tentar “vender” uma campanha de marketing.
Nelas, Hugo terá ficcionado endereços de e-mail com os nomes do primo Sócrates, do pai e de mais oito pessoas, juntando-lhes repetidamente o domínio ‘@neuroniocriativo. Com’ que “registava sempre com cópia no cabeçalho dos documentos que enviava para o Freeport”, garantiu fonte próxima da família Monteiro. Nesses mails constava, por exemplo, o endereço jsocrates@neuroniocriativo.com, afirmou a mesma fonte.
O 24horas apurou que Hugo terá enviado correio electrónico variado para os administradores do outlet Freeport, sempre com registo de cópias para todos os endereços que terá inventado, envolvendo assim no processo nomes sonantes de pessoas, nomeadamente o primo, então ministro do Ambiente, que os promotores do centro comercial já conheceriam, ou a quem deveriam alegados favores. Num dos e-mails que Hugo enviou em 2005 – e que ontem foi lido na sala do tribunal onde a inspectora Maria Alice, da PJ de Setúbal, os procuradores Vítor Magalhães e Pais Faria, e mais três inspectores da judiciária ouviram o tio de Sócrates –, o primo do primeiro- ministro terá oferecido os seus préstimos para desbloquear um incómodo legal para Freeport: “Ele manifestou a intenção de, através dos alegados conhecimentos que a sua empresa [Neurónio Criativo] tinha, usar essa influência para desbloquear o processo judicial aberto na União Europeia pela Quercus contra o Estado Português em 2002, por este ter viabilizado o empreendimento de Alcochete”, contou a mesma fonte.
Inspectores não vão obrigar Hugo a vir da China
O 24horas apurou igualmente que os investigadores e procuradores portugueses do caso Freeport consideram não haver fundamento legal para chamar a tribunal Hugo Monteiro – que está na China a estudar artes marciais – para ser ouvido no âmbito deste processo. Júlio Monteiro foi ontem ouvido no Tribunal de Cascais, onde permaneceu durante três horas, parte das quais em “amistosa conversa com a senhora inspectora Maria Alice, minha ex-colega de faculdade, com quem revi esses tempos”, explicou o advogado da família Monteiro, Belmiro Sá Leão, do escritório de advogados NGS.
O causídico confirmou ao 24horas que o seu cliente foi “confrontado com a apreciação de alguns e-mail encontrados durante as buscas que a PJ realizou e que não têm conteúdo incriminatório nem não são relevantes”, acrescentou. Para Belmiro Sá Leão, “esses emails são uma ficção, um cenário hilariante criado pelo filho do meu cliente que nada provam”. Júlio Monteiro saiu do tribunal com o mesmo estatuto com que entrou: como testemunha.