O Presidente João Bernardo "Nino" Vieira foi morto ontem por militares, cerca das 4h00 locais (mesma hora em Lisboa), horas após um atentado à bomba ter silenciado o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, o general Tagmé Na Waié. O profundo mal-estar entre "Nino" e o seu CEMGFA teve ontem o seu epílogo, com a morte de ambos. Tagmé foi o primeiro a tombar. Um atentado à bomba derrubou um dos generais mais ricos da região e demoliu na totalidade a sede do Estado- Maior, em Bissau. Horas depois, uma coluna militar que seria chefiada pelo vice-general Zamora Induta, vinda do Leste da Guiné, percorreu os 90 quilómetros que separam Mansoa de Bissau, com a clara intenção de matar Nino. "Chegaram, foram a casa de Nino, juntaram-se aos seguranças do Presidente, todos homens de confiança do general Tagmé, e assassinaram Nino com uma rajada de G-3", adiantou ao 24horas o amigo íntimo e adido comercial da Guiné em Portugal, Joaquim Gomes. Segundo fonte hospitalar, uma bala terá atingido o chefe de Estado frontalmente no rosto. As restantes balas alojaram-se no peito. Além disso, a cara estava praticamente desfigurada, sendo praticamente certo que Nino Vieira também tenha sido espancado. Os militares ainda fizeram um disparo de rocket para o interior da residência de Nino Vieira, mas o Presidente já estaria ferido de morte. Com o chefe de Estado já morto, a sua residência foi alvo da cobiça dos soldados, com o saque a ser dividido entre os algozes.
Assessor baleado
Por esta altura, havia dois palcos de morte e destruição: a casa de Nino Vieira e o edifício do quartel-general das Forças Armadas, parcialmente destruído dada a potência da explosão ocorrida cerca das 19h00 locais. Este terá sido um homicídio selectivo, pois deixaram incólume a mulher do Presidente, Isabel Vieira, que se refugiou na Embaixada de Angola, bem próxima da residência presidencial. Foi ali que, "bastante combalida e revoltada", encontrou segurança, contou ao 24horas a mesma fonte. Foi também ali que formulou um pedido de asilo político a Portugal, segundo avançou ontem a TVI.
Joaquim Gomes contou igualmente que o ataque à residência de Nino fez um ferido, o assessor de imprensa do Presidente. "O Barnabé ia a sair da casa quando foi abordado por seguranças e militares. Perguntaram se o Presidente estava em casa e, perante a resposta afirmativa de Barnabé, despediram- se com um tiro no ombro direito do assessor", relatou. Ferido, Barnabé foi assistido no Hospital Simão Mendes", o único de Bissau, tendo a ferida sido suturada com 22 pontos. Nino Vieira esteve bem recentemente na Europa, passando por França, onde foi "receber tratamentos a uma clínica em Paris", e pela Bélgica, onde aproveitou para privar de perto com os filhos do seu segundo casamento. Regressou a África, passou pela Gâmbia, e acabou por morrer em casa, onde havia regressado.
Rescaldo da violência
As Forças Armadas informaram, em comunicado, que "tudo aconteceu numa altura em que o Estado- Maior tem vindo a promover acções no quadro da reconciliação no seio das Forças Armadas" e assegurou que "a situação está sob controlo", no país, apelando à população "para se manter calma e serena e não abandonar as residências". O Estado- Maior reiterou também "o compromisso e a firmeza em obedecer ao poder político e às instituições da República", garantindo que "vai manter-se intransigente com a sua missão constitucional." Foram, entretanto, decretados sete dias de luto nacional. As chefias militares guineenses esclareceram, entretanto, que não se encontra em curso qualquer golpe de Estado e frisaram que vão respeitar os poderes constituídos e dialogar com o Governo de Carlos Gomes Júnior, que enalteceu o "alto poder patriótico" desenvolvido pelos militares, "que vai ajudar a ultrapassar esta crise".
Portugueses tranquilos
Contactado pelo 24horas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) garantiu que a situação dos portugueses residentes na Guiné Bissau "é tranquila", que "não há ninguém em perigo, nem indicações para abandonar o país". No entanto, a mesma fonte indicou que, "por uma questão de bom senso", não é aconselhável visitar nesta altura a Guiné-Bissau". O MNE assinalou, no entanto, que estão preparados todos os mecanismos necessários para acudir a qualquer cidadão português que deseje abandonar o país. Esse não é, por enquanto, um cenário que esteja nos planos de Rosa Alice, professora de Português residente na Guiné-Bissau, e cuja habitação dista "dezenas de metros" do local onde Nino Vieira foi assassinado. "Acordámos durante a noite por causa dos tiros e o pessoal da Cooperação Portuguesa disse-nos logo para não sairmos de casa.
Passámos a noite toda em branco, mas a situação nas ruas é agora mais sossegada. Só vejo meia dúzia de pessoas a andar. Não se vislumbram veículos militares, ou coisa do género. Estamos bem e em segurança", disse-nos Rosa Alice, depois de uma noite marcada pelo som de tiros de armas automáticas e disparos de rockets. "Recebemos instruções para não sair de casa até novas ordens. Estamos seguros e, se necessário, seremos evacuados pela Cooperação Portuguesa. Não contactámos a Embaixada de Portugal nem dela recebemos qualquer contacto, revelou". Informação semelhante forneceu ao 24horas uma outra professora a residir na Guiné-Bissau. "Se houver necessidade recorrerei à Embaixada de Portugal, mas como estou afecta à Cooperação Holandesa será através deste organismo que serei evacuada do país", disse a docente Maria João, que viveu uma noite de "sobressalto devido às muitas explosões".
"Não moro perto dos locais onde se deram os acontecimentos, mas ouvi tudo. Primeiro foram as bombas no quartel-general do Estado- Maior, depois foram explosões e tiros na casa do Presidente Nino Vieira", relatou, ao início da tarde de ontem. "Agora está tudo bastante calmo e estamos na expectativa de que tudo esteja normalizado em poucos dias. Aliás, nós na Cooperação Holandesa temos instruções para ter sempre mantimentos para pelo menos três dias. As pessoas afectas à Cooperação Portuguesa estão bem, temos instruções para permanecer em casa e penso que a tendência é para a situação acalmar.