"Na Casa Pia eu procurava um futuro. Mas como é que conseguia ter um futuro se acordava a levar porrada, adormecia a levar porrada e pontapés na cabeça, pelos educadores?". A pergunta surge, espontânea, da boca de André (nome fictício), uma das sete principais testemunhas do megaprocesso de pedofilia da Casa Pia, hoje com 24 anos, Este ex-aluno procurou ontem o 24horas para acusar a instituição, os seus actuais e os antigos responsáveis máximos, a quem acusa de o terem "abandonado" e "escorraçado" depois de passada a fase de febre do processo de pedofilia.
Ainda assim, o ex-aluno, "escolheu" Catalina Pestana, ex-provedora da instituição, da qual diz que "vai recebendo dinheiro por causa dos miúdos, dessas entrevistas que dá a falar de nós. Está a aproveitarse de uma situação que não tem nada a ver com ela, foi connosco, e vai sacando fundos", diz. André insiste em dizer que as crónicas escritas pela ex-provedora num jornal semanário são "uma injustiça" porque resultam de um aproveitamento "do caso dos jovens".
Abrigo e sopa dos pobres
André está desempregado e diz dormir num dos abrigos da Associação dos Albergues Nocturnos de Lisboa, na Rua da Cruz dos Poiais, em São Bento, e que já se inscreveu na sopa dos pobres, para poder ter o que comer à hora de almoço. "No abrigo ainda tenho pequeno almoço e jantar... Já pedi o cartãozinho para ir comer à sopa dos pobres, mas as coisas não são rápidas. Tá demorado", desabafa. Na fase mais quente do processo de pedofilia, diz este casapiano, "nós falámos [com as autoridades] de livre e espontânea vontade". Da parte da Casa Pia – e de Catalina Pestana – "eram só promessas, que nos iam ajudar. Mas, no final, não nos ajudaram nada. Foi bola", apontou, em tom muito crítico.
"Eu gosto das coisas direitas. Não sou de jogos"
André diz não ter entrado "no jogo" de "muitos" antigos colegas, que acabavam por assim ceder às pretensões dos responsáveis quanto ao seu envolvimento no escândalo de pedofilia. "Houve muitos que hoje têm a carta de condução dada pela Casa Pia. E há outros que não têm nada, porque não fizeram jogos com a Casa Pia. Eu gosto das coisas direitas. Não sou de jogos. A Casa Pia não quer ficar mal vista, mas só está a fazer coisas para ficar mal", aponta ainda este ex-aluno. Se houvesse alguém a quem tinha vontade de processar judicialmente, "se pudesse", essas pessoas e entidades seriam "a dr.ª Catalina Pestana e a dr.ª Joaquina Madeira, que lidera a Casa Pia, o Estado..." "Eu quero é que se faça justiça. Desde que entrei naquela casa sinto- me uma pessoa usada, como uma lata de Coca-Cola, um boneco. Hoje querem saber de ti, amanhã já não querem saber nada". Nem dos 10 mil contos que recebeu de indemnização e que "não tinha cabeça" para gerir. Já lá vão.