A mão apoiada no queixo, o rosto carregado e sem mexer um músculo: foi esta a postura do popular presidente da Câmara de Oeiras ao ouvir ontem a sentença de 7 anos de prisão efectiva em cúmulo jurídico por quatro crimes (corrupção passiva, fraude fiscal, abuso de poder e branqueamento de capitais) e ainda a perda de mandato.
Foi também condenado ao pagamento de 463 mil euros ao Fisco por IRS em atraso durante 13 anos (de 1990 a 2003). Isaltino Morais escancarou um sorriso para os jornalistas à saída do tribunal, ao afirmar que já recorreu da sentença. A candidatura porOeiras mantém-se.
"Vamos a votos! Os oeirenses é que sabem!", declarou confiante, distinguindo "a justiça da política".
À mesma hora, pelas 18h30, o PS apelava a que não se recandidatasse (ver caixa). Na sala de audiências ninguém viu o autarca sorrir.
Pelo contrário. Isaltino Morais aguentou as quatro horas que durou a leitura do acórdão sempre na mesma pose: rosto carregado e olhar fixo na juíza.
A presidente do colectivo, Paula Albuquerque, também olhou o arguido nos olhos e não o poupou a um sermão severo e repleto de lições de moral.
As explicações que Isaltino deu sobre contas bancárias na Suíça e fuga ao fisco são "uma afronta à inteligência do comum cidadão", considerou.
A juíza criticou ainda as declarações de Isaltino Morais sobre os montantes que acumulou, ele que chegou a depositar mais de 1,32 milhões de euros em contas na Suíça quando, entre 1993 e 2002, ganhou como presidente da Câmara uns "modestos" 351.139 euros. "'Sempre gostei de numerário', declarou o arguido, referindo que chegou a ter 90 milhões de escudos em casa", lembrou a magistrada.
Também afirmou, como recordou a juíza, "que a sogra chegou a recorrer à dona Branca". "Quanto aos depósitos na Suíça, disse ainda que era assim que todos os políticos agiam na altura. Sobre as "declarações obrigatórias" de rendimento que os titulares de cargos públicos fazem ao Tribunal Constitucional, "referiu que nunca levou a sério tais declarações". Paula Albuquerque sublinhou ainda, por várias vezes, que o arguido é "licenciado em Direito e chegou a pertencer ao corpo de magistrados do Ministério Público, como o próprio referiu, portanto sabia bemque estava a infringir a lei". Os restantes quatro arguidos – o antigo jornalista da Lusa Fernando Trigo, a irmã de Isaltino Morais Floripes Almeida, e os empresários João Algarvio e Mateus Marques – foram absolvidos dos crimes de que vinham acusados.