Dizem que a fé move montanhas. E se é por uma questão de fé, Portugal vai estar, de certeza absoluta, no Mundial 2010, na África do Sul.
Não é só o povo português que está a rezar por uma presença na grande competição, e que não passa apenas por fé ou rezas, mas sim por coisas tão terrenas quanto três vitórias, a primeira das quais já hoje, sobre a Hungria. Lá longe, nos confins do Uzbequistão, Luiz Felipe Scolari, treinador do Bunyodkor, também está a pedir pela Selecção Nacional.
Quem o garante é o seu mentor espiritual, o padre Pedro Cunha, igualmente brasileiro, que trabalha na Igreja de Nossa Senhora das Graças, cidade de Passos, Minas Gerais. "Tenho a certeza de que Luiz Felipe Scolari está a rezar à Nossa Senhora do Caravaggio por Portugal e de que está a torcerpela vossa selecção", garantiu ao 24horas o sacerdote, disponível e afável. Foi em 1991 que o padre Pedro Cunha – descendente de uma família do Porto – e Luiz Felipe Scolari se conheceram.
Na altura, o primeiro era conselheiro do Criciuma, o segundo era treinador do clube. "Ele simpatizou com a minhamaneira de sere de falar. Ficámos amigos", relata. Apartir de então, acompanhou a fé de Scolari. "Essa devoção dele pela Nossa Senhora do Caravaggio vem de longe. Ela é muito homenageada no Rio Grande do Sul, em Caxias do Sul, onde Scolari começou como jogador. Em Santa Catarina existe até um grande Santuário", lembra. Às vezes não basta rezar...
Enquanto Scolari foi seleccionadordePortugal, a presença da santa protectora foi uma constante. Aimagem de Nossa Senhora do Caravaggio acompanhava a comitivaparatodososcompromissosetinha, até, espaço reservado nos balneários da selecção. Homem de profundas convicções religiosas, Felipão manifestou essa fé nosmomentosmais importantes da história recente da selecção: em 2004, rezou no Brasil depois do segundo lugar no Europeu; em2006, pediu ao padrePedroCunha para benzer as camisolas das Quinas para o Mundial, em que Portugal chegou às meias-finais; em 2008, por ocasião do Campeonato da Europa, pagou uma promessa com uma caminhada de 18 quilómetros a um santuário em Goiás. "NoEuro 2004 e noMundial 2006 conversávamosmuito. Ele vinha cá e levava água benta e objectos de piedade", confessa o sacerdote. "Como disse, sei que ele está a rezar e a torcer por Portugal. Mas às vezes não basta rezar.
É preciso que os jogadores da vossa selecção tenham vontade e disponibilidade. Deus atende a quem está unido e não a quem tem desavenças, desuniões e desacordos." Crítica velada, conselho, ou... palavra da salvação? Ficou omistério, que o padre Pedro não quis ir mais além. Tinha outras coisas para dizer. "Sabe, ele tem uma grande amizade por Portugal, torce pelo país e estou certo de que não queria ver a vossa selecção nesta situação. Tem grande afinidade e um carinho muito forte por alguns jogadores do presente e do passado, que lhe davam confiança para projectar o seu trabalho. Quem? Figo, Deco, Ronaldo, tantos..."
Hoje, ao serviço do Bunyodkor, o clube que passou do anonimato para o estrelato com a contratação (a peso de ouro) de um dos mais conceituados técnicos do mundo, Felipão pode estarlonge da realidade diária da selecção nacional. Mas o padre Pedro Cunha tem uma certeza tão grande quanto à distância que separa o Brasil do Uzbequistão: Scolari volta a rezar por Portugal. Será que chega para irmos ao Mundial?